sábado, 24 de outubro de 2020

NEM CARRASCO, NEM INDIFERENTE

 

A Bíblia é um livro maravilhoso, historicamente e antropologicamente falando, e para nós, cristãos, ela tem um significado muito especial, pois por meio dela nós conseguimos obter valiosas informações a respeito do nosso Deus, porque ao mergulhar em suas páginas podemos encontrar lindas poesias dedicadas a Ele, além de ver o seu agir em prol daqueles que Nele confiaram, através da História. Ela contém, também, o segredo de como nos aproximarmos Dele.

Quando percorremos esse espetacular livro que é a Palavra do Eterno, podemos vê-Lo fazendo coisas maravilhosas, poderosas e até mesmo inimagináveis e, assim, capturar nuances de sua personalidade, como peças de um quebra-cabeças. Há momentos em que Ele está bravo, em outros, amoroso. Podemos encontra-Lo agindo logicamente, humanamente falando, e até mesmo numa lógica que não conseguimos compreender. Às vezes Ele faz o que parece óbvio para aquele que está lendo, mas também há casos em que Ele surpreende e derrama misericórdia só porque Ele achou por bem assim fazer.

Desde que eu nasci, literalmente, tenho ouvido falar sobre o Senhor (possivelmente até mesmo antes de ser dada à luz) e ao longo do tempo, pelo menos duas abordagens radicais sobre a sua personalidade têm se destacado. A primeira diz que Ele é justo e castigador, a outra fala que Ele é amor e perdoador. Os adeptos do primeiro extremo dizem que os do outro são rasos e apregoam um Deus superficial, estes, por outro lado, dizem que os primeiros são fanáticos e falam de um ditador carrasco. Ambos os grupos se esquecem que tanto amor, quanto justiça, são atributos divinos.

Os dois grupos supracitados conseguem encontrar subsídios nas Escrituras para embasar as suas falas extremistas, isto porque recorrem aos seus trechos de forma isolada e não a toda ela, de maneira integral, pois, não fosse assim, entenderiam que não se trata de “oito ou oitenta”, há um grande intervalo que admite maior flexibilidade na hora de elaborar sermões. Dizer que Deus é só amor requer que sejam ignorados episódios em que a sua justiça foi praticada e afirmar que Ele é, simplesmente, castigador implica em negligenciar histórias de misericórdia, quando o seu perdão foi ofertado a pessoas que não o mereciam. O cenário do Calvário evidencia os dois aspectos divinos em questão, afinal, ali estava sendo imputada a sanção por nossos pecados, ao mesmo tempo em que o amor era manifestado, mediante a oportunidade de reconciliação que foi oferecida.

Eu confesso que fico irritada quando algumas pessoas insistem em mostrar aos seus ouvintes apenas um dos aspectos já mencionados, criando neles uma atmosfera de medo e, muitas vezes horror, ao faze-los acreditar que se não disserem “sim” à graça, de imediato, serão caçados e destruídos. Do mesmo modo, fico preocupada com mensagens evasivas, que passam uma ideia equivocada de que porque somos amados e a salvação é de graça, nada precisamos fazer em contrapartida. As duas situações são antibíblicas. Eu gosto mesmo é dos sermões de Jesus, que trazia uma abordagem eficiente ao apresentar o evangelho de forma genuína, puro e simples. Graças à sua mansidão e à sua humildade, nem mesmo quando ficou irritado, deixou de ser excepcional. Ele não recorria ao medo ou à superficialidade para conseguir adeptos, as suas falas diziam respeito à necessidade intrínseca que temos de um relacionamento pessoal e íntimo com o Criador.

Uma vez que compreendemos que fomos criados para nos relacionarmos não apenas com o nosso próximo, mas principalmente, e essencialmente, com o Todo Poderoso, torna-se mais fácil entendermos a nossa busca constante por preenchimento e completude (os lindos discursos de autossuficiência não se aplicam aos cristãos) para, assim, recorrermos ao socorro ofertado por Jesus, o Cristo. E quando conhecemos, por nós mesmos, o tão famoso Deus Javé, através de uma genuína comunhão, podemos finalmente perceber que Ele não é carrasco e nem indiferente. Ele é Pai e sabe educar seus filhos, impondo limites, mas munido de um imensurável e incompreensível amor. Mas se alguém ainda não se dispôs a isso, não deveria tomar partido em tolas discussões sobre Ele ser bom ou mau, pois uma das maiores virtudes que uma pessoa pode ter é a de não se manifestar a respeito de algo, a menos que o faça com propriedade.

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