domingo, 29 de abril de 2018

DESESPERO E ESPERANÇA

Olá forasteiro. Como vai? Chamo-me Aprendiz, natural das terras da Insensatez, desde cedo decidi aventurar-me nessas estradas rumo à cidade da Sabedoria. Entre as muitas coisas que eu já vi, recordo-me de ter encontrado, certa vez, um belo jardim. Ah, como era lindo aquele solo coberto das flores singelas e delicadas de Esperança! O seu perfume exalava e contagiava a todos em volta. Nele, o futuro podia ser visto perfumado, colorido e sorridente. Pessoas de todas as partes procuravam comprar algumas de suas flores, mas estas não podiam ser vendidas. Eram bondosamente ofertadas para aqueles que possuíam um terreno fértil dentro de si.
Os canteiros continuavam floridos por toda a primavera e no verão pareciam ainda mais viçosos, mas era só questão de tempo até o outono vir e arrancar as frágeis folhinhas, espalhando-as por todo o terreno. E como se não bastasse, lá vinha o inverno, soprando gelado e espalhando por todos os lados uma densa cinza chamada Desespero. O futuro, naquele momento, tornava-se preto e branco, triste e sem cheiro, e o gelo queimava as pobres plantas que ainda restavam.
O que mais me impressionou, no entanto, não foi a destruição da Esperança, pois na verdade isso apenas causava dor. O surpreendente foi perceber que as folhas que caíam no inverno fortaleciam ainda mais o solo, e a cinza que ajudava a destruir transformava-se em adubo, dando força para que a Esperança novamente brotasse. Então, outra vez vinha a primavera e tudo ficava novamente florido.
E foi assim que na jornada rumo à sabedoria aprendi uma bela lição, a saber, que o desespero que destrói a esperança é o mesmo que fortalece o solo para que ela torne novamente a brotar. Dessa forma, já não mais os vejo como inimigos irreconciliáveis, mas como membros de uma mesma equipe, colaborando entre si, afinal, nem um dos dois existe na ausência do outro. Ora, não é o desespero o fim da esperança e esta última o algoz de seu destruídor?

quinta-feira, 19 de abril de 2018

EXPECTATIVAS PARA 2009, O ANO MÁGICO

Recordo-me de que quando eu tinha oito anos de idade tomei uma vacina antitetânica e ouvi alguém dizer que eu só tomaria outra dose em 2009. Aquelas palavras tiveram um reflexo tão surpreendente em mim que voltei para casa pensando em como seria esse ano. Assim, tentei imaginar-me adulta. Como eu seria? e a minha vida? O que eu estaria fazendo? Meu corpo, meus traços, minha aparência... tudo parecia tão inimaginável. Não consegui enxergar-me com dezoito anos. A partir de então, 2009 tornou-se mágico para mim.
Quando enfim chegou o tão esperado ano já não parecia mais tão mágico como um dia fora, então comecei a pensar em como seria a minha vida aos vinte e cinco anos. Teria concluído um curso superior, conquistado um bom emprego e possivelmente estaria prestes a me casar. Era um mundo tão novo para mim que novamente tive dificuldades em imaginar como ele seria. Mesmo assim, eu tinha certeza de uma coisa: seria mágico.
Finalmente chegou os vinte e cinco... vinte seis... e agora são quase vinte e sete. Praticamente nada do que foi planejado aconteceu, e eu continuo imaginando como será a minha vida no futuro. Mas, uma vez que quem vive no futuro, ou no passado, perde o presente, busco sempre fazer o exercício de questionar-me se nessa tão árdua espera não estou eu a me perder.
Esperar é, muitas vezes, doloroso, mas saber esperar é um dom que, infelizmente, muntos não têm.