Eu costumava sair por aí fantasiando com um mundo bonito, onde as pessoas sorriam e falavam "bom dia" para os estranhos. Era um lugar tão especial que ninguém negava um copo de água a um viajante que caminhava debaixo de um sol escaldante, e um simples "obrigado" pronunciado, acompanhado de um riso sincero eram as melhores recompensas para uma existência com significado.
Eu costumava olhar para as pessoas buscando nelas não só o que todos viam, mas principalmente aquilo que estava oculto aos olhos naturais. Queria ver dentro da alma, as cicatrizes que faziam delas ser quem eram. Eu tinha a tola mania de enxergar não a realidade, mas os potenciais.
Eu costuma acreditar que contos de fadas existiam na vida real e que era só questão de tempo para se ter um final feliz. Achava que para cada princesa havia um príncipe, mesmo que antes ele houvesse sido sapo, mas o caminho inverso dessa metamorfose, na minha ingenuidade, não podia imaginar.
Eu costumava me doar por completo na expectativa de que seria cuidada, como um mimo recebido de quem tanto bem ao outro quer. Me espremia por inteiro, escondendo a dor na alma, esboçando no rosto um riso, com o intuito de fazer feliz aqueles que tantas vezes só lagrimas me causavam, indiferentes ao esforço que a eles eu dedicava.
Finalmente entendi que "meu mundo perfeito" era imaginário, que não importa o que as pessoas carregam na alma, até que elas o queiram expor, e que as expectativas, na maioria das vezes, salvas algumas poucas exceções, não podem basear-se nos potenciais, mas em análises de riscos, muito bem realizadas.
Depois de tantos passos dados, também compreendi que contos de fadas são ótimos, mas só na infância e que um final feliz não é aquele em que encontramos um príncipe encantado para nos tornar princesas, porque isso já somos. Felicidade é a satisfação do caminhar rumo à realização de um sonho. De que vale a felicidade só no fim? Ainda mais se ele não for como o esperado.
Percebi que o meu erro era olhar para as pessoas, buscando nelas aquilo que eu costumava ver ao me olhar no espelho. Agora entendo que, por mais que todos tenham em si o potencial de amar, perdoar, respeitar, cuidar, ajudar e vencer, infelizmente, também existe o de odiar, guardar rancor, não respeitar, desprezar, se negar e fracassar. E não sou eu quem pelos outros irá escolher.
Eu faço a minha parte
Cultivo a minha arte
Danço no meu ritmo.
Vivo os meus sonhos
Só dos meus monstros sou dono
Mesmo na dor, com fé persisto.
O que os outros fazem é problema deles, quem quiser minha opinião que a peça, e depois decida se irá ouvi-la ou não.
Mas, se mesmo com o choque de realidade, a tola garota conseguiu dentro de mim sobreviver, no seu peito resta esperança de que todos possam, como ela, aproveitar a chance que tem de viver.


