Dizem que as crianças é que são felizes e, em condições normais, isso é bem verdade. Talvez seja porque as condições em que vivemos a fase adulta nos deixe cegos diante de algumas coisas e, por isso, como se não bastasse nos colocarmos em uma situação de infelicidade, ainda condicionamos os nossos pequeninos a viverem também assim.
Recordo-me de que nos primeiros anos da minha vida conseguia me alegrar com coisas simples, como um carrinho de picolé, um cachorro quente depois de vir da igreja, balões que decoraram algum aniversário, um elogio dos pais, a comida da vovó, criar voz de robô com um ventilador, tomar banho de mangueira, subir numa árvore e sair correndo feito louca para não ser a "barata" do pega-pega.
Foram tantas experiências maravilhosas que as poucas horas de choro por causa do castigo ou das varadas e, até mesmo as lágrimas que evidenciavam as dores que mesmo sem entender eu sentia na alma, ficaram em segundo plano. Mas essas coisas, agora, parecem ter se tornado bobas e por isso focamos a nossa atenção nos problemas que precisamos a qualquer custo resolver.
Quando vejo crianças que nunca souberam o prazer que é brincar de carrinho, boneca, pião ou esconde-esconde porque estão precocemente ocupadas demais com seus celulares, tablets e videogames, seguindo os passos de "seus adultos" não consigo evitar perguntas do tipo: que histórias elas terão para contar? como vão definir o seu próprio parâmetro para mensurar a felicidade?
Nossos jovens não sabem ouvir "não" porque nós não sabemos dizer a eles essa palavra. Fracassamos quando o assunto é impor limites porque passamos a vê-los apenas como restrições, como cercas que os impedem de encontrar a liberdade, quando há casos em que eles também são proteção para os perigos dos quais eles ainda não conseguem se proteger.
A nossa felicidade independe da fase em que estamos atravessando. Ela está relacionada a como nos permitimos ver a beleza nas coisas simples e sentir as pequenas alegrias, pois negligenciar isso implica em dar ênfase as tristezas e dores da vida. Talvez o problema não seja a ausência da felicidade, mas a nossa incapacidade de percebê-la, e consequentemente a nossa mania de negá-la às nossas crianças.